.:. VIDA DE SAVINA PETRILLI .:.
A
vida de Savina não tem acontecimentos capazes de excitar a imaginação. Os lances dramáticos dos santos acontecem sempre no íntimo da alma. Ao vê-los pelo exterior, os santos podem até p

arecer exóticos ou incompreensíveis. É como observar um tapete persa pelo avesso. Vêem-se tantas linhas, tantas cores, mas não se é capaz de reconstituir o desenho.
Somente a Deus é concedido conhecer as suas obras-primas. Nós podemos fazer hipóteses, podemos tentar descrever uma trajetória. Mas a verdadeira história dos santos permanece secreta.
Savina não faz exceção a essa regra. A sua biografia nada tem de extraordinário. Só de tempos em tempos, surge um episódio, um fato fulgurante. Então, compreendemos que aquilo que aparece é simplesmente a ponta de um iceberg. O resto, o mais, nos foge, está submerso nas profundezas de Deus.
Savina nasce em Sena, a 29 de agosto de 1851. Seus pais: Celso Petrilli e Matillde Vetturini.
Fisicamente, é um graveto. Muitas vezes quando criancinha, esteve às portas da morte. Um dia, até, considerada verdadeiramente morta, chegou a ser coberta com um lençol, como se faz com os cadáveres. Passaram-se seis horas para que se pudesse esclarecer o engano.
No dia 2 de setembro de 1852, aos treze meses, exatamente por causa de uma dessas crises costumeiras, a conselho do médico, lhe é ministrado o sacramento da Crisma.
Todavia, esta criança, mirradinha e depauperada, revela de imediato um caráter indômito.
Savina leva as coisas a sério. Aos dez anos, lê a vida de Santa Catarina de Sena. E, imediatamente, se sente atraída por aquela forte personalidade. Da santa senense aprenderá muito: a devoção à Eucaristia, o amor ardente a Cristo Crucificado; o acatamento filial à Igreja, a predileção pelos pobres.
Naquele tempo, a primeira eucaristia se recebia por volta dos catorze ou quinze anos. Mas Savina tem pressa de encontrar-se com Cristo Eucarístico.
Em 1863, aos doze anos, supera a todas as companheiras mais velhas do que ela, no conhecimento da doutrina cristã, de tal forma que a catequista – Irmã Teresa, das Filhas de Caridade – se vê forçadas a admiti-la ao Sacramento da Eucaristia.
O próprio confessor de Savina, vendo o ardor com que a menina comunga, lhe concede permissão para aproximar-se da Eucaristia de oito em oito dias. Freqüência que, naquele tempo, era considerada excessiva!
Mas a tais disposições de ânimo, Savina não chegou por acaso. Reza, medita, aproveita toda ocasião – da contemplação da natureza à leitura de livros de temas espirituais – para aproximar-se cada vez mais de Deus.
Nessa época, freqüenta a escola das Filhas de Caridade. Nas horas livres, ajuda a mãe nos afazeres domésticos e no cuidado dos irmãos menores.
Não obstante o estudo e as múltiplas atividades, encontra ainda o modo de dedicar-se a duras mortificações. Quer dormir no chão. A mãe lhe proíbe. Então, Savina, que compartilha da cama da mãe, torna incômoda com tábuas e pedras a parte do leito que lhe toca. Diante da insistência da filha, mãe se vê obrigada a ceder e, exasperada, deixa escapar uma expressão de rendição: Arre! Contigo ninguém pode!
Há um outro episódio da infância de Savina, que vale a pena ser lembrado para delinear o caráter da garota.
Estamos em 1863, o ano de sua primeira comunhão. Os Petrilli não moram mais na Via del Costone, onde Savina nasceu, mas se mudaram para a Via Diacceto. Embaixo do seu apartamento, funcionava uma taberna.
Uma noite, Savina já está no leito, juntamente à sua irmã menor, Emília. Quase sempre, enquanto a irmã dorme, Savina se levanta para rezar. Havia preparado sobre uma cômoda um altarzinho: uma toalhinha, um Crucifixo, duas velinhas.
Numa dessas noites, Savina se levanta da cama e se põe de joelhos. No andar térreo, um vozerio confuso de gente que compra, que bebe.
De repente, chega aos ouvidos de Savina uma blasfêmia. Alguém, talvez um pouco quente pela bebida, gritou um insulto àquele Jesus a quem Savina está orando. Ela sente-se como que tocada por uma descarga elétrica. A sua têmpera e, sobretudo, o amor a Cristo a fazem abrasar-se
de raiva reprimida.
Imediatamente, da maneira em que se encontra – descalça e de camisola de dormir – desce as escadas e entra na taberna. Pára fremente e frágil junto ao balcão. Recrimina a todos. O indicador aponta para o grupo de homens do qual deve ter partido a blasfêmia. As palavras de Savina são de fogo. Depois, torna-se suplicante e passa a implorar.
Ninguém esperava tanto ardor daqueles quatro palmos de menina. Savina não desiste enquanto não recebe dos consternados fregueses uma promessa de arrependimento. Somente então, esgotada, pálida, mas feliz, volta para seus aposentos.
Savina não se rende às dificuldades. Tem já idéias claras e tem a coragem de pô-las em prática.
Uma infância igual a tantas outras, por um lado, mas de alguma maneira já assinalada. Não por acontecimentos extraordinários. Mas se percebe já os prenúncios de alguma coisa diferente.
A vida de Savina será um crescendo dessas primeiras tentativas. Deus havia já descoberto essa pessoínha frágil e a está trabalhando a golpes de cinzel.
Quem interpreta a existência humana com os olhos da fé, sabe que nada acontece que seja inútil ou em vão.
Savina teve o mérito de associar os sinais de amor que Deus lhe vinha manifestando, e tirar as devidas conclusões. Afinal, a santidade é uma questão de memória. É necessário, simplesmente, recordar a cada instante que Deus nos ama. Só depois disso, irrompe em nós a vontade de corresponder.
Em uma carta dirigida ao confessor, por ocasião de sua primeira comunhão, Savina havia escrito: “Eu nada pensava, senão no meu caro Jesus que sentia realmente dentro de mim e ouvia a sua voz que me atraía fortemente a amá-lo, a servi-lo por toda a vida... Entreguei, então, meu coração a Deus, suplicando-lhe que não mo devolvesse jamais...”
Deus também toma as coisas a sério. Deus não obriga ninguém a fazer-se santo. Mesmo quando faz cair do cavalo, Deus não violenta jamais a liberdade do homem. Existe sempre um “se queres”, antecedendo ao amor.
Mas quando o homem responde sim, então Deus o toma a sério.
Savina já fez sua escolha no dia de sua primeira comunhão. Não lhe resta senão atuá-la em forma pessoal. Cada história de santidade é diferente de todas as outras.
Os caminhos para se chegar até Deus são muitos e todos belos porque todos difíceis; mas todos pavimentados de amor.
A saúde de Savina sempre inspira cuidados. Tem um pé defeituoso, que a faz mancar ligeiramente. Em compensação, tem uma vontade inquebrantável e uma perspicácia fora do comum. Se surge um modo para aproximar-se de Deus, Savina logo o aproveita, levada por uma fina intuição.
Em 1866, na paróquia onde reside, é erigida a Pia União das Filhas de Maria. Imediatamente, Savina passa a fazer parte da mesma. E, como de costume, leva as coisas tão a sério que, bem depressa, pela sua personalidade marcante, é eleita Presidente, com apenas 15 anos de idade. É que Savina não sabe fazer as coisas pela metade. Não põe limites à sua dedicação.
Na Pia União das Filhas de Maria, estreita relações de amizade com algumas companheiras da mesma idade. Elas a admiram, vendo nela um modelo. E espontaneamente, se lhe congregam em torno. É agradável ouvi-la falar. É edificante vê-la rezar.
Os encontros na sede da Pia União já não lhe bastam. Savina convida as amigas para sua casa, a fim de continuarem de conversas interrompidas, para prolongarem os momentos de interiorização. Bordam, costuram e, enquanto isso, fazem reflexões sobre Deus.
Talvez, naquelas horas, se delineia sempre melhor a vocação de Savina. Ela, na verdade, já optou pela santidade. Agora, comunica às outras o próprio entusiasmo. Sabe que ninguém se torna santo sozinho. Sabe que as necessidades do mundo são muitas. Sabe que o cristão não tem o direito de ser medíocre.
Talvez, naquelas horas, projetam consagrar-se inteiramente a Deus.
Savina, porém, não se perde em fantasias. Sonha uma vida toda doada ao Senhor e, ao mesmo tempo, começa a vivê-la.
Cada domingo, em duas igrejas diferentes – na paróquia de São João Batista e na sua paróquia de São Peregrino – ensina o catecismo às crianças. Experimentou o dinamismo ardente do primeiro impacto com Jesus. Desejaria fazer com que cada um vivesse os momentos de êxtase que ela gozou.
Leva consigo à casa paterna também estas crianças. A sua casa é um vaivém contínuo. Chegou até a destinar uma dependência para uma capelinha.
Contudo, Savina não se dedica somente aos garotos. Todos aqueles que sofrem, porque longe de Deus, a preocupam. Pobres no sentido mais dramático da palavra, porque pobres de Deus.
Savina está agora com dezessete anos. No entanto, tem já o zelo do verdadeiro apóstolo. É um bom testemunho disso o seu ardor pela conversão do padrinho. Savina se angustia, se atormenta, não mede esforços para conduzi-lo a Deus. Reza por ele, escreve-lhe cartas de admoestações e de súplicas. Exorta-o à confissão com um tom entre ameaçador e profético: “Espero ouvir dizer que Deus vos tocou o coração... e que fizestes uma boa e santa confissão... e não deixeis passar longo tempo sem fazer aquilo que eu vos disse, porque quem tem tempo, não espera tempo...”
Parece que se lê um trecho de uma carta de Santa Catarina de Sena.
Mas o que mais impressiona é que essas intervenções sempre atingem o fim a que Savina se propõe. O padrinho se arrepende e se converte. Deus não desilude quando se trata da salvação de almas. Recompensa sempre, se necessário com um milagre, a quem o testemunha.

Enquanto isso, a vocação de Savina vai assumindo conotações sempre mais definidas. Deus abrevia os tempos. A cruz entra de cheio na vida de Savina. Não é mais somente o sofrimento físico pessoal. É o tormento de ver outros sofrerem: o verdadeiro sofrimento dos santos.
Savina tem dezoito anos. A idade das escolhas definitivas e irrevogáveis. Enfim, tudo está claro. Os seus interesses, os seus amores estão agora perfeitamente delineados.
A Eucaristia, a cruz e, conseqüentemente, os pobres. E na Eucaristia, a Igreja. E na cruz, o sofrimento aceito, procurado, amado. E nos pobres, o serviço, a dedicação absoluta.
As suas forças- ela bem o sabe – são poucas. Todavia, Savina não tem dúvidas de que o pouco com Deus é muito. De que Deus continuará a marcar com uma sinalização segura a sua estrada. Diz sim, e basta. Um sim que é assumido cada dia, na própria carne.
Por ordem do confessor, com humildade, Savina escreve as várias fases de sua vocação. Mas não é sobre atitudes humanas, sobre introspecções psicológicas que Savina fundamenta as próprias certezas. Do abandono confiante em Deus tirará a força para permanecer fiel aos seus propósitos.
Tanto que, quando o confessor lança ao fogo o diário espiritual de Savina, ela permanece impassível.
Tomará ainda a caneta às mãos, não mais para escrever sobre si, mas para consolar os outros.
Savina já é desapegada, já é pobre. Agora, a sua pobreza se encontrou com a pobreza de Deus.
Savina aprendeu a assumir o sofrimento, pois entendeu que quem sofre mais, lucra mais. Mas, sobretudo, aprendeu a viver em profunda intimidade com Deus.
Na bela catedral de Sena, passa horas e horas em fervoroso agradecimento; cada vez que recebe a comunhão.
Lê e medita a palavra de Deus – um “luxo” até então reservado a poucos.
Conserva-se perto dos pobres, porque estes estão mais próximos de Deus. Aprendeu a receita do estar junto, que nada mais é do que doar-se.
Agora está pronta a concretizar o seu ideal: fundar uma Congregação dedicada ao serviço dos pobres. Espera, apenas, que Deus dê o sinal de partida.
Enquanto isso, aconselha-se com o confessor para emitir o voto de virgindade perpétua. Quer ligar-se a Deus com um compromisso mais sério.
O sacerdote permite fazer uma promessa renovável: primeiramente, de mês a mês; depois, de ano a ano.
Savina aceita porque os pobres são acostumados à obediência. No íntimo, porém, já deu tudo e para sempre.
Agora, desejaria viver juntamente às companheiras a mesma doação radical. Como que para dar a Deus alguma coisa além do seu amor pessoal. Mas Deus tem os seus caminhos e a sua hora.
Em junho de 1869 em companhia do padrinho e de uma amiga, Savina dirige-se a Roma. No dia 7 de julho, é recebida em audiência por Pio IX, juntamente a algumas pessoas.
O encontro de Savina com o Papa, pela simplicidade jocosa do fato, nos parece a antecipação de um episódio da vida de João XXIII.
Ao tirar as luvas. Savina perde um anelzinho de ouro que leva ao dedo. Um Monsenhor o apanha e lho devolve na presença do Pontífice. O Papa, percebendo o incidente, pergunta-lhe: “Que é que perdeste? Um anel? Desta vez perdeste o anel, da próxima, perderás a touquinha que tens na cabeça. De que cidade és?” “De Sena”, responde Savina timidamente.
“Vai, vai – replica Pio IX – vai com Santa Catarina, caminha sobre as suas pegadas e segue-lhe os exemplos”.
Parecem simples palavras meio brincalhonas e meio reprovativas. Mas Savina tem o coração predisposto à vontade divina. Segue o conselho do Papa ao pé da letra. Vê nele aquele sinal de partida que esperava de Deus. Agora, sim, tem a certeza absoluta de que Deus quer a Congregação.
Volta para Sena, mas por enquanto nada fala às amigas. Quer. Primeiro, sondar-lhes as intenções. Quer ainda rezar para que Deus suscite nelas a vocação religiosa.
Passam-se três anos. Em 1872, ainda um sinal da vontade de Deus. Morre entre seus braços Emília, a irmã a quem era mais intimamente ligada.
Savina confia à Irmã a idéia de fundar uma Congregação Religiosa. Emília lhe sussurra: “Tu trabalharás na terra e eu te ajudarei do céu”. São as suas últimas palavras.
Savina agora tem a garantia de uma protetora junto a Deus. Tem, portando, pressa de realizar o seu sonho.
Ao findar-se aquele ano, Savina pede uma audiência com o Arcebispo de Sena, Monsenhor Enrico Bindi. Expõe-lhe os seus projetos agora já definidos, até nos mínimos detalhes.
O Arcebispo ouve, mas freia o entusiasmo veemente da jovem: “Tempo, oração, conselho”, diz-lhe o Arcebispo.
E Savina, que já esperou, que já rezou, que já pediu conselho, mais uma vez obedece. Continua a esperar, a rezar e a pedir conselho. Deseja caminhar na Igreja e com a Igreja.
Apesar disso, não quer que a espera torne-se infrutífera e força os acontecimentos.
Com três de suas companheiras mais fervorosas pronuncia secretamente os votos religiosos anuais.
No ano seguinte, 1873, ei-la que volta ao Arcebispo. Desta vez, Mons. Bindi é mais explícito. Compreendeu não ser tarefa fácil lidar com quem não desiste. Ordena a Savina compilar uma Regra, que aprova em seguida. Porém, a faz esperar mais um pouco antes de lhe dar a permissão para viver em comunidade com as companheiras.
Por enquanto, continuarão a reunir-se na casa de Savina. Chamar-se-ão Irmãs dos Pobres. Uma denominação que já é um programa de vida.
Com Savina, seis jovens aderem à Congregação e emitem os votos nas mãos do sacerdote delegado pelo Arcebispo.
Na primavera de 1874, Savina se dirige uma segunda vez a Roma, para falar com o Papa. Está mais decidida, mais segura de si. Tem vinte e três anos. Cinco anos atrás, o Papa lhe havia dado uma pista, mas agora Savina pretende algo mais. Uma ajuda concreta para iniciar a assistência aos seus pobres, para encontrar um local que pudesse servir de habitação para a pequena comunidade. Na casa Petrilli as acomodações são insuficientes.
A Pio IX, Savina diz: “Somos pobres, pobres”. E o Papa lhe retruca: Também S. Felipe de Néri era pobre. Mas não vá meter na cabeça que é S. Felipe de Néri ou Santa Catarina. Confie em Deus. Eu lhe preparei alguns centavos”. Mete a mão no bolso, retira uma bolsinha com duzentas liras e lha entrega.
Depois, abençoa Savina e a recomenda à caridade do Marquês Bichi Rúspoli, de Sena, para que ajude a nascente Congregação.
Um pequeno pecúlio agora já têm. Faltam os pobres. E eis um outro sinal da Providência divina. Enquanto as Irmãs esperam que o Marquês Rúspoli encontre-lhes uma moradia, Deus coloca nas mãos de Savina o tesouro mais precioso.
Uma senhora de Sena encontra uma menina no desvão de uma escadaria. Está esfomeada, magríssima e tremendo de frio. Chama-se Nazzarena Cancogni, mas a apelidaram de “três onças” (“onça” – peso antigo equivalente a menos de 30 gramas), de tão raquítica que era.
O pai havia abandonado a mãe que, por fim, fora parar num Hospital, ficando Nazzarena sozinha. Abandonada à solidão, à fome, ao frio.
A senhora que conhecia Savina e as companheiras, confiou-lhes a pequena.
Savina acolhe Nazzarena como um dom de Deus. Mas na casa paterna de Savina não existe mesmo nem mais um lugarzinho.
Finalmente, com o auxílio generoso do Marquês Rúspoli, as Irmãs dos Pobres adquirem um pequeno apartamento na via Baroncelli. Poucas dependências, sem nenhum conforto. Mas para Savina é uma mansão. A Congregação tem a sua “Casa Mãe”!
Em setembro de 1874, a família religiosa se transfere para sua nova residência. Savina deixa definitivamente a casa paterna. Desapego doloroso, mas há muito tempo esperado!
Na via Baroncelli, não existem cadeiras, nem camas, nem qualquer outra coisa. As Irmãs dos pobres não têm nada, nem mesmo para o jantar.
“Rezemos” – diz Savina. Ajoelham-se no chão. Ouve-se bater à porta. É um homem mandado por uma vizinha com um cesto de alfaces frescas, que são colocadas na pia.
Terminada a oração, Savina diz: “Comeremos no jantar esta alface como um presente da Providência”. Vão limpar a alface e percebem que está cheia de bichinhos. “Repugnava comê-la”, conta mais tarde uma Irmã.
Savina, porém, diz: “Não, não joguemos fora. Lavemo-la bem e a comamos bendizendo ao Senhor”.
Aquela foi a primeira ceia da comunidade. Um início simbólico que representa, em síntese, toda a história de Savina e da sua Congregação.
Tudo o que aconteceu em seguida, foi um suceder-se de eventos que falam da mesma simplicidade, da mesma fé, da mesma amorosa Providência de Deus.
Depois de Nazzarena, outras meninas são acolhidas pelas Imas. A família
aumenta a olhos vistos. A todas Savina dispensa cuidados mais que maternos. Não se contenta em alimentá-las, vesti-las, educá-las. Leva-as a Deus, as faz crescerem na fé.
Quando na casinha da via Baroncelli, o Arcebispo de Sena concede que se conserve o Santíssimo, a felicidade de Savina atinge o auge! Tem junto de si seus dois apaixonados amores: Cristo e os pobres.
Em 1875, a Congregação é oficialmente aprovada pelo Arcebispo e já pode receber noviças. Numerosas vocações religiosas florescem em torno de Savina e de suas primeiras companheiras.
O pequeno apartamento da via Baroncelli se mostra cada vez mais insuficiente para abrigar as meninas e as Irmãs. Necessário se faz abrir uma outra casa.
Ano de 1877. Savina tem vinte e seis anos. As meninas assistidas são
cinqüenta e seis.
Savina sempre atenta a caminhar com a Igreja, volta novamente a Roma e o Papa aprova definitivamente as Constituições da Congregação.
Em 1881, abre-se uma segunda casa em Onano, província de Viterbo. Se possível fora, as suas condições são ainda piores do que as da primeira fundação. Móveis não existem,nem lenha para o fogo, nem fogão para a lenha, nem panela para levar ao fogo e nem alimento para por na panela. Apenas um poço meio em ruínas, sem balde e sem corda para puxar a água.
Savina e as Irmãs que a acompanham, se entreolham meio apreensivas. Depois, ao invés de se desesperarem como seria mais que lógico, caem na risada.
A pobreza causa alegria a Savina. É indício da benevolência de Deus. Portando, tudo pelo lado positivo!
Após a primeira explosão de risos, mãos à obra. Prende-se uma cordinha a um balde amassado encontrado num canto, e se consegue subir um pouco de água. Desta vez, não têm nem mesmo a alface.
Depois, devagar, devagar,chegam as cadeiras, os colchões de palha e outros móveis pedidos emprestado às famílias vizinhas. Savina é a primeira a arregaçar as mangas. Por dias e dias carrega armários e mesas, limpa vidros e esfrega pavimentos.
Para cada casa que depois se instala, repetem-se mais ou menos as mesmas peripécias: extrema pobreza, confiança em Deus, alegria e trabalho. Muito trabalho.
Savina, como todos os pobres, sua para ganhar o pão. E não somente para si.
Depois de Onano, no decorrer de poucos anos, outras casas surgiram: Firenze, Montes-pertoli, Celle sul Rigo, Volterra, Roma, Pomarance, Bologna, Cortona, Livorno. E muitas outras. À morte de Savina, a Congregação contará com cinqüenta e duas casas e quatrocentas e quarenta Irmãs.
Não se compreende o mistério da inesgotável fecundidade espiritual de Savina, se não se leva em conta a sua doação incondicionada a Deus. E Deus é um ótimo investimento. Paga cem por um. E até mais.
É bem certo que o crescimento da Congregação tem algo de miracoloso. Mas o verdadeiro milagre é o amor de Savina. Amor a Cristo e amor aos pobres. Todavia, o amor não se conta com os números.
Tampouco sobre as cruzes se pode fazer estatísticas. E cruzes na vida de Savina foram muitas!
Em 1822, morre o Marquês Rúspoli, que tão eficazmente tinha contribuído para a expansão da Congregação. Um golpe duro para Savina, mas também mais uma ocasião de crescer na santidade.
A sua palavra de ordem é: “Tudo é pouco por Jesus!”. E para testemunhar este lema, consome-se pelas crianças e pelas Irmãs.
Os pobres continuam sendo o seu “trabalho” preferido. Um dia, um Bispo visita uma das casas onde estão acolhidas algumas das crianças de Savina, e pergunta: “Em que consiste o trabalho das Irmãs dos Pobres”? Savina suspende pelos braços uma criança, coloca-a de pé sobre a mesa da cozinha, e diz: “Este é o nosso trabalho!”
Um gesto que traduz uma vida. Que, por si só, revela uma santidade.
Savina pregou na sua saleta de trabalho um cartaz, onde se lê: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade”. E é exatamente pela vontade divina que ela pauta todo o seu agir.
E Deus, que não se deixa vencer em generosidade, não lhe deixa faltar nada. Nem ajuda material nem ajuda espiritual.
Nessa época, Savina vem a conhecer um santo sacerdote: Mons. Pio del Corona. Até àquela data, com exceção dos seus anos de infância, não havia tido um diretor espiritual. Agora, tem um guia seguro. Estabelece-se entre os dois uma estreita correspondência epistolar que, até hoje conservada, nos vem revelar o esforço de Savina para adquirir o “direito” de ser pobre.
Enquanto isso, a Congregação se expande. O olhar de Savina atravessa as fronteiras da Itália e se projeta até as terras de missão. O apostolado de Savina é tão universal como o da própria Igreja.
Em 1899, chega inesperado, mas preparado pela ânsia apostólica e pelas orações de Savina, o convite para estender a sua missão ao Brasil.
Depois de quatro anos de entendimentos e lutas para superar dificuldades, finalmente, nos primeiros dias de setembro de 1903, seis Irmãs dos Pobres embarcam, no porto de Gênova, com destino às terras brasileiras, onde iriam abrir a primeira casa.
A essa seguiram-se outras no Brasil e, depois, na Argentina.
O coração de Savina bate em uníssono com o coração católico da Igreja. E de tal forma conseguiu imprimir esse mesmo ritmo na sua Congregação que, hoje, à distância de pouco mais de meio século de sua morte, as casas já se estendem também à Índia, aos Estados Unidos, às Filipinas e ao Paraguai. Onde há pobreza, aí é o lugar das Irmãs dos Pobres, ensinou Savina às suas filhas.
Savina escreve às Irmãs missionárias cartas transbordantes de ternura. Conforta a sua solidão as reanima nos desconfortos e nas tribulações, estimula-as ao sacrifício e à perfeição.
Faz mais ainda. Alguns anos depois, apesar de cansada e doente, atravessa ela mesma o oceano, para levar de viva voz uma palavra de ânimo e carinho às Irmãs distantes.
Ao mesmo tempo, consolida as estruturas básicas da Congregação. Escreve o comentário ascético das Constituições. Aí se encontra a síntese da sua espiritualidade. A obra-prima dos seus anseios de mãe.
Mas os tempos caminham para o fim. Savina se consumiu pelos seus pobres. O seu físico, por mais que seja sustentado pela vontade, dá sinais de capitulação. Quando, em agosto de 1919, celebra o cinqüentenário de profissão religiosa, a sua saúde declina rapidamente.
Restam-lhe apenas três anos de vida. Três anos de espera para desembarcar no porto dos seus anseios. Último trecho do seu calvário.
Morte como a de Savina não se improvisa. Desde a infância, Savina caminhou com a morte lado a lado. Chama-a de “boa amiga”.
Os santos preparam a morte física, morrendo um pouco a si mesmo, dia por dia. Quando a morte chega, estão já crucificados com Cristo.
Nos últimos anos, Savina escreve: “Eu sentia como se Jesus me dissesse: Daqui por diante, estás comigo estigmatizada... Eis-te crucificada comigo, teu Deus”
Quando se vive com estas palavras no coração, a morte é um ponto de chegada cobiçado.
Savina, porém, como autêntica pobre, deve aguardar pacientemente até mesmo a morte.
Os primeiros sintomas graves aparecem em 1921. Está em Fontebecci, para a festa do Corpo e Sangue de Cristo, entre as suas noviças.
Durante a procissão, tem que parar. Não consegue mais caminhar. No dia seguinte, o seu estado era de causar pena. A quem a socorre, ela diz sorrindo: “Tinha-me esquecido de que já tenho setenta anos”.
Ainda uma manifestação do seu espírito de humor. A morte, como a pobreza lhe desperta uma certa “alegria”.
Intensifica mais a sua atividade. Não quer perder tempo com a desculpa de que “está perto de morrer”.
No ano seguinte, revela à sua Assistente que vive sentindo dores no seio esquerdo. “A princípio – explica – nunca fiz caso disso”.
Depois de minuciosos exames, o diagnóstico é o pior possível: tumor maligno. Savina é posta a par da gravidade do mal. Mas a sua reação corresponde a sua pobreza. Não se preocupa nem um pouco. É como se lhe tivessem diagnosticado um resfriado.
Também não esmorece no trabalho. Pelo contrário, continua imperturbável as suas viagens para visitar as casas.
Inesperadamente, no dia 2 de fevereiro de 1923, enquanto se dirigia à capela da Casa Mãe, em Sena, para participar da Celebração Eucarística, é prostrada por um forte mal-estar que a obriga a acamar-se.
Seguem-se dias de preocupação por parte das Irmãs. Savina Recebe o Viático. No dia 7 de fevereiro, lhe é ministrada a Unção dos Enfermos.
Uma vez mais, porém, a morte parece zombar de Savina. No dia 13 de fevereiro, o médico a declara fora de perigo.
Savina pode deixar o leito. É colocada numa cadeira de rodas, e retoma os afazeres diários. “Tenho fome e sede de trabalho”, diz ela.
Atualiza a correspondência, atende às Irmãs, interessa-se pelas meninas
A 18 de abril do mesmo ano, a última recaída. À tarde, toda a comunidade se congrega em torno da doente.
A agonia foi breve. Às 17:20, Savina se uniu àquele Deus, de quem, por um grande amor, jamais se havia separado.
Quando a notícia se espalha em Sena, muitos choram. Sobretudo os pobres.
Fonte: Romano De Roma, EMP – edizioni messaggero padova